Um mestre zen, gozadinho ele, dizia: "quem sabe não fala". Eu, como sou socrático até a cicuta, e nada sei: falo.
Mais uma vez saindo da toca. É que o Osvaldo escrevendo... quer dizer que a coisa está ficando boa. Gentes, esse cara é personagem de música de Caetano. E a filhinha deve ser lindinha mesmo. Assim como é lindinha demais a filha do nosso futuro Lula-lá, o Cariri.
Mas vamos lá:
A Elda, minha companheira e mestre em bom senso (eu, como sabem, sou personagem do Lewis Carroll; dai a minha total incapacidade para acumular dinheiro nem poder; dai minha obsessão por escovar palavras, como disse aquele que anda pela terceira infância aos 94 anos - o meu pai poeta de Barros; dai a minha necessidade e sorte de ter ao redor pessoas de bom senso, como a Elda - e a minha filha sensata - Bia // a Kaká, não; ela será arqueóloga de palavras; mais uma do Lewis // a Paula, menos; ela é poeta gótica aos 14 - mais outra sem futuro financeiro. E o pai, orgulhoso das três. Caladinho como bom oriental, mas orgulhoso.
O que era que estava escrevendo? A Elda. Sim. Ela tá dormindo já. (Mas) Ela disse: que povinho danado esse da Rede e da Lista que se mete nos sonhos e faz você falar dormido de Listas e Paulos Freires e travessias e tal. Ela disse mesmo. Poi Ser, eu disse, com sotaque indefinido. Às vezes perco meu sotaque (que é sotaque pessoal, de uma família, de um bairro, de uma cidade, de um país, de uma mistura... e não, como dizem "cordiais", e etnocéntricos, os brasileiros, um "sotaque latino" / mas esses - o singular, e o genérico, se perdem quando eu me perco na lembrança, no devaneio, na invenção de uns Outros que sou).
E aí, com os danadinhos da Rede, a toca fica tremendo, a toca é um pedaço de chão confortável que dá ecos e ecos de palavras e mensagens. E ela fala ao pé do (meu/seu) ouvido: qual o nosso lado do espelho? E surge o gato da Alice com a cara do Stotz e diz, uma e outra vez: para que quer saber para onde vai este caminho se não sabe aonde ir? Tanto faz.
Tem que saber o caminho? Há caminho correto? Vale deixar-se encontrar pelos caminhos? Vale deixar-se levar pelos caminhos? Vale o papo Zeca Pagodinho da coisa?
E ai a toca se mexe como coelho espreguiçando-se e eu, urgentemente, tenho que sair ao sol - embora sejam quase 9 horas da noite. Sol figurativo, literário, quase como texto pós-estruturalista que joga palavras mágicas como sementes de feijão procurando gigantes e castelos nas nuvens.
E aí eu saio da toca, driblando - como disse a Amélia em mensagem pessoal (não mostro para ninguém, vai comigo ao túmulo): como Garrincha. Aliás usei minha camisa de Garrincha a Alegria do Povo ontem. E hoje, pelos gritos destemperados na rua o Botafogo ganhou e vai à final para perder de novo do Flamengo... flamengo time de sanitaristas, rs.
E escrevo. Saído, expulso por vocês, caindo ao jardim da Alice onte uma pedra é uma pedra e não aquela do meio do caminho (outra vez Stotz, com caminhada de Drummond, atravesando o Flamengo).
Noite de sábado. Com a minha mini artista (Ana Clara, 7) assistimos a Alice psicodélica do Disney. Crianças são mestres. Jorge Drexler diz: os filhos fazem à gente relembrar que toda vida é sagrada. E é mesmo. Que toda glória é nada. E é mesmo.
Que todo poder é meio e nunca fim. Que toda bajulação é ferida de faca no coração dos honestos. Que sempre haverá supremacia da experiência direta com as pessoas mais simples.
Que eles são os verdadeiros mestres (não todos, óbvio, há que confiar no acaso construído pela beleza do percurso).
E a galera da educação popular devia saber. Pelo menos isso. Fundamental. Pedra fundadora. Olha o exemplo aí: o Eymard nas comunidades de João Pessoa; a Carlinha Moura e seu belo trabalho; a Vera/Neide e turma; paro que vou esquecer gente demais.
Mas esquecemos. Ou, papo psi, fica tão escondido nas camadas mais desconhecidas que justificamos tudo a tal ponto de maquiar tudo e parecer tudo e fazer tudo... confusão danada. Mas vocês me entendem.
E ai, se por acaso pensávamos nos paraísos, eles existem no meio das lamas - dá medo falar de lama aqui no Rio, porque rapidinho pensamos naqueles políticos que foram colocados lá e não estão nem aí, mesmo falando na hora do aperto, mesmo dizendo que estão aí, mas na verdade querem é se dar bem. E imagino a Dilma lavando as mãos uma e outra vez depois de acariciar a cabeça do Garotinho. Que alívio, heim Ivo? Tu tá agora em casa, no friozinho de Teresina, bebendo cajuina cristalina de Teresina, somente para perguntar no fim da tarde: "Existirmos. A que será que se destina?".
Eis o ponto do negócio. O Valla disse uma vez, no bar Palácio: "o problema do Brasil é que todos pensam que devem se dar bem a qualquer custo. Se não o Brasil seria perfeito. E eu estou aqui quase 40 anos". E ele disse: todos, com essa ironia perfeita, além da própria consciência, que o elevava à categoria de mestre zen, sem ele mesmo perceber.
E ai ele ficava dizendo piadas sobre como o pessoal do PT era também autoritário e nem se interessava em escutar a fala das pessoas da população. E que os cientistas sociais entendiam tudo errado. E ai chamava o garçom, muito querido ele, e perguntava e perguntava. Acho que minha dissertação foi mais fala do garçom do que minha. E o Valla estava certo.
E o que que o saudoso Victor tem a ver conosco? Misteeeeeerio.
Alguém por aí sabe me dizer?
Hoje andei com cara de burro na minha aula de violão. Sempre fico burro ao lado do mestre (o grande alagoano João Lyra, virtuose e grande piadista e debochador). Mas hoje foi pior. O chorinho eu nem conhecia. Os acordes, menos ainda. Ai decidi: vou parar de tentar, relaxar e escutar os colegas e o mestre. Não é que foi bom demais da conta? Foi quase como meditar (no sentido budista e não cristão) e alcançar a iluminação (por fragmentos de segundo, claro). E ainda, o João rindo na minha cara e dizendo: não vai tocar? E eu: tá bom demais assim João.
Aprende-se violão para tocar e para parar de tocar e ouvir. Quando se ouve se faz grande música também.
E depois, voltando de ônibus e metrô da Urca para a Tijuca (as ruas ainda todas enlamadas) carregando o violão nas costas eu ria: "que imagem bizarra: um chinês peruano tentando aprender choro e atravesando a cidade com um violão grandão, meio atrapalhado, meio objeto de curiosidade. Há certa beleza nisso, mesmo que seja produzir alegria nos curiosos."
E já chego à lista, que somente sobre a lista são as mensagens - me disseram e algo li, mesmo um colega legal falando: se quero apago, se quero leio. De novo Zeca Pagodinho: se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser fumar eu fumo, pago tudo com o suor do meu emprego... etc. [aliás, será que o papo Pagodinho é mais contemporâneo que o papo da Viola?]. E eu disse: se não escrever sobre a lista ninguém vai ler. Escrever sobre a lista da ibope. Coisa importante, a lista.
Já vou chegando à lista...
A minha avó de 95 anos faleceu no bairro de Surquillo (pronuncia-se Sur-Qui-Lho, senhores lusófonos) faz uns 3-4 dias. Curiosamente, ainda não veio se despedir. É costume de vários da minha família vir em sonhos ou em atos misteriosos se despedir de mim e de 2-3 primos mais. Já que está de moda o Chico Xavier (a globo fez filme e agora novela e irá lançar dezenas de produtos das organizações Globo para realizar o oposto do ideal do Chico: se enriquecer e ficar poderosos) eu trouxe esta história fresquina. Só para chamar a sua atenção. Já vi gente bocejando.
Minha avó. Ela era dura, raivosa, violenta. Casou quatro vezes. Batia nos filhos com entusiasmo, quando isso era virtude e quase obrigação. Era simples. Lia devagarinho. Gostava que os netos lê-sem coisas para ela. Eu lia para ela aventuras em velhos livros amarelados: Verne, Salgari, Dumas... isso com 8-9 anos. Li a Divina Comédia (a tradução devia ser pésima) com 10 anos. A cada página ela dava um doce. Ler para ela me fez amar os livros. Ainda, cozinhava para os netos (todos deixados por nossas mães com ela). Fazíamos fila na cozinha para pegar quitutes. Ela ria. Deixou de ser violenta com os netos. Não precisava. Guardou a raiva para os genros, coisa compreensível (feministas peruanas iriam amar a história). O tempo confirmou que a ira da dona Apolônia Jiménez era justificada, rs. Homem não presta mesmo.
Espero a despedida dela sem ansiedade. É que a mente dela andava confusa. Talvez demore um pouquinho. Mas ela chega. Também, nunca veio ao Brasil. É longe, sabiam? Moro aqui 15 anos e ainda me sinto longe, muito longe.
Vai, rapaz. A lista. Sim. Até o autor tá com sono agora.
Fiz da lista minha casa, como recém casado - ou melhor como namorado morando com a namorada, só curtição. Isso foi por 2 ou 3 anos. Talvez 4. Depois virou trabalho. Eu queria outros tomando as rédeas para ir voando por outros lugares. Ou na mesma rede, sem o peso de Administrar e estimular diálogos que, pela mudança inevitável-boa-necessária das pessoas e do mundo, já eram de outra ordem.
Faz algumas semanas disse algo como: amava a lista de 30. A de 800 (sim chegou a ter 800) era um imenso ágora interrogando. Quem está lá? Será que também tem gentes que pensam totalmente diferente e estão "vigiando para depois castigar"? Será que há também lobos fantasiados de cordeiros, usando Paulo Freire para afirmar podres poderes, confusas vaidades, lucros dúbios? Nunca teremos certeza. Não mais. Como alguma vez o Eymard me disse: deixou de ser espaço protegido.
É necessário espaço protegido? Ou melhor: todo mundo precisa da intimidade de um lar? A internet pode ser isso?
Eu, para descansar, relaxar, gosto da minha casa.
Como escrever diante de um espaço aberto, sem fronteiras, sem rostos? Alguns irão se cuidar. Outros irão calar. Outros irão botar máscaras. Outros, sem nada a perder, irão soltar suas palavras e paixões. Ou talvez de tudo, dependendo do tempo e do ánimo.
E a lista vai indo... sem poder ser muito planejada, norteada, sugestionada, arrumada, empurrada, abalada, acabada...
Porque, eu disse em BSB em 2002: lista não é rede. Me preocupo mais com a Rede que com a Lista. Listas morrem rápido (aí eu errei, já vão 11 anos - aliás o aniversário da lista foi em Março: 11 anos).
E tem sido (e será ainda) uma lista valiosa: com pelo menos, chutando, 60% de coisas significativas (informações, diálogos, aportes teóricos, discussões políticas, textos afetivos, outros poético... e até anárquicos como este que vou produzindo pensando em 537 que são... 537).
Enfim. Fiz uma pausa. Botei a criançada para dormir - que o corriqueiro e o doméstico são nossos verdadeiros milagres e não ler (entendendo) autores/heróis como Freire, Vasconcelos, Stotz, Valla, Deleuze, Foucault, Bobio, Elias, Levi-Strauss, Carlos Brandão, etc.... e o coitado Spinoza (nunca vi alguém ser tão falado e tão pouco aplicado)... todos esses carinhas são somente ajudas para constatar a supremacia da experiência do mundo, da profundeza da contemplação, da interpenetração - algo assim como um 69 espiritual - e a grandíssima sorte que temos de ter contato com as pessoas simples/sábias: como Oris, como Elias, como a Verinha (pajé ilustrada)... e outras sabidinhas que fizeram o maior esforço para serem simples/sábias, conseguindo com certa freqüência: como a Neidinha, o Sérgio sumido, a Iracema de outras praias, a Renata Pekelman (minha gêmea), e muitos mais.
Desses todos encontrei na rede. Na lista e depois ao vivo. Não vou ser "político" nem "polido" nem falso de dizer que tooooooooodos que conheci caem nos tipos ideais/reais acima ditos. Misteeerio. Só vou dizer que os que não são são poucos, bem pouquinhos. E, claro, não são capetas completos, coitados. Mas poucos fazem barulho danado. Enfim, melhor penso na toca.
Enfim, acho que falei da lista. E se você conseguiu ler até aqui é porque é viciado na edpopsaude. Abraço e vai se tratar, mermão. Vicio tem cura. E até tem redução de danos. E ainda tem palavrinhas bacanas para lhe consolar. Olha: dispositivo, potência, rizoma, implicação, olho vibrátil... coisa fina... aliás, você sabe o que é caviar?
Posted via email from wongun: mis/meus posterous
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